Primeiro Capítulo
Hoje o cretino da monitoria tava na minha cola à escuta.
A gente não sabia ao certo quando eram feitas as “escutas” na linha. Alguém nos dissera que dava pra saber por causa dos ruídos, de uns barulhinhos que denunciavam o voyeur auditivo. E o que a cambada ouvia era registrado no relatório pro famoso “fodebeque”. Caramba! a gente nunca fazia a coisa certa. Eles na escuta, e a gente se esfolando pra meter um provedor de internet pago goela abaixo. A coisa não era fácil. Mas os cretinos nunca tavam satisfeitos. Se pegávamos o infeliz do cliente pelo cangote, conseguíamos uns pontinhos que não se revertiam em grana. Porém, se o camarada escapava pela tangente, o voyeur falava as suas porcarias através dos fones após o fracasso da venda. E aí o negócio fervia. Reclamava da abordagem malfeita, tu não fez as perguntas abertas, as perguntas fechadas, tu não sondou o cliente, não enfiou a sonda nele. Ouvíamos calados até o fim. Então ele ou ela discursava por alguns minutos e ENSINAVA A VENDER PELA MILÉSIMA VEZ E DO MESMO MODO QUE O OPERADOR FAZIA TODO O SANTO DIA DURANTE 6 HORAS E 120 LIGAÇÕES.
Aí o talzinho entrou na linha. Pena que um trem não lhe amassava os miolos.
-Qual o problema, Bet-ty? A venda tava no papo. Como deixou escapar?
-Pois é, ele não quis. Usa provedor gratuito.
-E isso é objeção que se aceite, hein, Bet-ty?
-Não, mas foi o que ele alegou.
-Ouvi o que ele alegou... Mas penso que tu tá há mais de dois anos na empresa e passou por vários treinamentos e, sinceramente, a objeção que o sujeito levantou era pra ludibriar principiante...
-É.
-E a sondagem...?
-Perguntei quantas pessoas usavam a internet na casa dele... É uma pergunta de sondagem.
-Claro. E aproveitou a resposta? Ele disse que os filhos e a esposa utilizam o computador, então...?O que tu fez?
-Ofereci os serviços, ora.
-E era pra se focar nos serviços do acesso discado?
Saquei aonde queria chegar.
-Podia ter oferecido outra tecnologia, mas ele insinuou que tava sem dinheiro, acho que desempregado, e que a mulher voltaria a trabalhar, então pensei que não teria condições de bancar outro tipo de acesso... Bom, ele nem queria adquirir um plano pago!
- De-du-ziu? Baseado numa in-si-nu-a-ção...? Essa é boa, é ótima! Vem cá, me diz uma coisa, é problema nosso se o cara tem ou não dinheiro ou se ele revira latas de lixo pra comer...?, é...? somos uma empresa filantrópica? Se o cidadão não pagar é problema do jurídico. Simples, né? A GENTE TEM UM PRODUTO E SÓ QUEREMOS QUE A SENHORA O VENDA. Tua nota é 32. Boa noite.
Panaca.
As notinhas eram de 0 a 100. Eu sempre ficava meio escorada nos 60. Hoje, 32. Olhei pra minha colega de infortúnio e ela me enviou um sorriso de espartana. Era ela quem deveria fazer a monitoria, três anos de empresa, um recorde entre os da VENDA-ATIVA. No entanto, o cara que acabava de me mijar tinha 22 e três meses de atendimento. Ei, alguém diz pra aquele louco que segura a bandeira da JUSTIÇA enfiá-la no rabo???Obrigada.
*
Trinta segundos. A supervisora me fez um sinal. O intervalo entre as ligações era de trinta segundos. A máquina tinha de girar e girar e girar. Apertei o botão pro sistema discar o próximo número. Oito da noite, e eu tinha um janelão às minhas costas. Girei a cadeira de rodinhas e vi os carros indo e vindo na Júlio de Castilhos. Do décimo primeiro andar era legal ver a cidade e as suas luzinhas de merda. O céu tava estrelado mas não era bonito.
Comecei a declamar o script imbecilóide enquanto examinava a possibilidade de quebrar o janelão com a minha cadeira (quer dizer, a cadeira da empresa) e depois me jogar com os braços abertos até meter a cara no asfalto... Aí o cliente disse que não tinha computador e eu perguntei se ele conhecia alguém pra me indicar e ele disse que se o fizesse perderia a amizade da pessoa. Boa noite, querida, ele disse. E desligou. Oito e quatro. Mais uma ligação. O cliente tava no banheiro e não podia me atender. Mentira. Era só sacarem que a ligação vinha de um call center que já escapavam rapidinho. Deixei um recado inútil. A mulher foi legal e fingiu que anotou. Oito e seis. Bocejei. Um colega me passou um pedaço de rapadura, escondido. Não podia comer nos postos de atendimento. Enfiei o troço doce na boca, ajeitei a bunda no assento e mandei ver mais um número.
-Boa noite, senhor.
-Boa noite, senhorita.
O negócio era atacar rápido, não deixar espaço pro camarada pensar ou perceber que recebia uma ligação direta do Inferno.
-Meu nome é Betty, sou do megaportal Itop de internet e o senhor acaba de receber uma superpromoção. A partir de agora, desse instante, nesse momento, o senhor terá trinta dias pra acessar todos os nossos canais gratuitamente. Basta apenas que nos forneça o número do seu CPF e escolha a sua senha pessoal e intransferível! O senhor terá informações do mundo inteiro na tela do seu computador. E através do nosso provedor terá acesso à cultura e diversão sem sair de casa. Não perca ESSA OPORTUNIDADE. É agora ou nunca.
Eu falava enquanto tentava demolir a rapadura entre os dentes, a merda grudava no céu da boca. De repente me bateu um desespero, estendi a mão e peguei a garrafa de água mineral a minha frente. Bebi um golão.
-Nunca.
Quase engasguei.
-Como...? digo, o senhor contará com descontos em vários estabelecimentos da cidade e do exterior e ainda receberá um DVD de presente a sua escolha.
-Um aparelho de DVD?
-Um filme, pode ser...
-Não, obrigado. Já tenho meu provedor e não vejo motivo pra trocar.
-Então farei uma nova proposta imperdível - era a mesma, só que dita de outra forma, - O senhor mantém o seu provedor enquanto utiliza o nosso de forma gratuita, a fim de compará-los.
-Não, obrigado. Fica pra próxima, agora eu...
-Esse tipo de oportunidade não surgirá novamente. Que tal um filme, 30 dias gratuitos e dois ingressos pra assistir ao filme italiano MOSCA TONTA...?
-Tô jantando... Pode ligar outra hora, por favor?
-É que o sistema é eletrônico e não podemos retornar as ligações. Tô passando o seu login e a sua senha de acesso e agora mesmo o senhor poderá acessar o nosso megahipersuperportal... É só anotar...
-Não tenho papel.
-É só memorizar...
-Escuta, senhorita, não quero ser indelicado, sei que é o teu trabalho, sei que deve ser uma pressão danada, sei que a vida não te deu muitas oportunidades e tu tem que ficar horas e horas telefonando pros outros e enchendo o saco mas...VÁ À MERDA!
Desligou. E eu consegui engolir a rapadura.
*
Oito e meia. Fiz sinal pra supervisora. Tínhamos direito a quinze minutos de intervalo. Dez pra comer e beber, e cinco pra mijar e mijar. Só. Comíamos o que trazíamos de casa mas o expresso era totalmente gratuito. A máquina da Coca às vezes ficava com o nosso dinheiro e não despachava a latinha, era um saco. Então eu sentava numa banqueta ao redor da mesa e conversava com o pessoal. Todos com seus celulares, de olho nos minutos. Descontavam-nos cada segundo fora do tronco.
Tava cansada, com dor nos ombros, nas costas e nos pés. Eu era toda dor. Lindo. Meus olhos ardiam. E às vezes sentia uma fisgada nos pulsos.
O meu horário era o das três da tarde às nove. Era proibido fazer ligações após as vinte e uma horas. E a empresa levava a sério. Rá rá rá.
Entrei no banheiro e mijei. Olhei pro teto e vi um olho preto, a porcaria de uma câmera. Um dia tirei o tampão e balancei pro cara que me espionava. Diziam que aquela porcaria não era uma câmera, e sim um buraquinho sem função. Eu nunca soube da existência de algum buraquinho sem função.
Um minuto. Avisei o meu intestino e ele calou-se. Lavei as mãos. Fitei-me no espelho. SE TU NÃO TE TORNAR UMA ESCRITORA PROFISSIONAL PODRE DE RICA COMO O PAULO COELHO EU COMO O TEU FÍGADO, SUA PUTA! Fiz pose de boxeadora, saltitei no lugar e simulei uns soquinhos. O.k., venham me ferrar que eu mostro as minhas marcas!
Voltei com os ombros encurvados para a P.A. O colega da rapadura contava uma piada e os outros riam. Ofereceu-me outro pedaço do grude, escapei. Sentei-me com um ânimo de dar inveja aos moribundos. Pus o headset, apertei o botão para que aparecesse outro número. Bocejei. Era a voz de uma secretária eletrônica. Fiquei alegrinha. Esfreguei os olhos. Outra ligação. Minha colega disse que usaria o fundo de garantia pra comprar um apê, assim podia se casar logo. Ah, eu disse. E o cara do outro lado da linha me informou que o titular do telefone havia morrido ontem. Ah, eu disse. Fui para a próxima ligação. E todos gritaram porque estávamos próximos da meta, só faltavam cem assinaturas.
-Se cada um vender mais dez até as nove, fechamos a meta!!! VAMOS!! ÂNIMO, O SUCESSO DEPENDE DE VOCÊS!
Precisei de seis horas pra vender quatro assinaturas e a vadia queria que em quarenta e poucos minutos eu vendesse mais dez. Ei, não tomou teus remedinhos hoje...?
Nove horas e um minuto. Ergui-me da cadeira meio zonza. Uma dor de cabeça dos infernos e o estômago implorando comida. A coluna em frangalhos.
-QUEM FICAR ATÉ MEIA NOITE RECEBERÁ HORA EXTRA!
Olhamo-nos, os operadores escravos, os sacanas miseráveis, os famintos, os implacáveis. Pensei no meu envelopinho com o dinheiro pra publicação do meu primeiro livro, pensei na minha história, pensei na história da minha vida e me vendi por uns trocados.
Todos nós, os odiados, continuamos a encher o saco dos cidadãos do país.
*
Uma hora no ônibus.
