16.6.09

Primeiro Capítulo


Porto Alegre, 2004


A minha profissão não era a mais antiga do mundo. Mas uma das mais odiadas. Por certo já desejaram acertar um murro no meio da minha fuça. Eu era aquela que significava a Interrupção. E não tava só. Representava um exército de xaropes munidos de computadores e headsets. Um batalhão de funcionários de uma grande empresa. Não vendia o meu corpo mas eu era a vadia que incomodava com a vozinha impessoal e um discurso de abordagem bem decorado sem oscilações. Operadora de telemarketing, essa era a minha função. E recebia um salário de merda.

Hoje o cretino da monitoria tava na minha cola à escuta.

A gente não sabia ao certo quando eram feitas as “escutas” na linha. Alguém nos dissera que dava pra saber por causa dos ruídos, de uns barulhinhos que denunciavam o voyeur auditivo. E o que a cambada ouvia era registrado no relatório pro famoso “fodebeque”. Caramba! a gente nunca fazia a coisa certa. Eles na escuta, e a gente se esfolando pra meter um provedor de internet pago goela abaixo. A coisa não era fácil. Mas os cretinos nunca tavam satisfeitos. Se pegávamos o infeliz do cliente pelo cangote, conseguíamos uns pontinhos que não se revertiam em grana. Porém, se o camarada escapava pela tangente, o voyeur falava as suas porcarias através dos fones após o fracasso da venda. E aí o negócio fervia. Reclamava da abordagem malfeita, tu não fez as perguntas abertas, as perguntas fechadas, tu não sondou o cliente, não enfiou a sonda nele. Ouvíamos calados até o fim. Então ele ou ela discursava por alguns minutos e ENSINAVA A VENDER PELA MILÉSIMA VEZ E DO MESMO MODO QUE O OPERADOR FAZIA TODO O SANTO DIA DURANTE 6 HORAS E 120 LIGAÇÕES.

Aí o talzinho entrou na linha. Pena que um trem não lhe amassava os miolos.

-Qual o problema, Bet-ty? A venda tava no papo. Como deixou escapar?

-Pois é, ele não quis. Usa provedor gratuito.

-E isso é objeção que se aceite, hein, Bet-ty?

-Não, mas foi o que ele alegou.

-Ouvi o que ele alegou... Mas penso que tu tá há mais de dois anos na empresa e passou por vários treinamentos e, sinceramente, a objeção que o sujeito levantou era pra ludibriar principiante...

-É.

-E a sondagem...?

-Perguntei quantas pessoas usavam a internet na casa dele... É uma pergunta de sondagem.

-Claro. E aproveitou a resposta? Ele disse que os filhos e a esposa utilizam o computador, então...?O que tu fez?

-Ofereci os serviços, ora.

-E era pra se focar nos serviços do acesso discado?

Saquei aonde queria chegar.

-Podia ter oferecido outra tecnologia, mas ele insinuou que tava sem dinheiro, acho que desempregado, e que a mulher voltaria a trabalhar, então pensei que não teria condições de bancar outro tipo de acesso... Bom, ele nem queria adquirir um plano pago!

- De-du-ziu? Baseado numa in-si-nu-a-ção...? Essa é boa, é ótima! Vem cá, me diz uma coisa, é problema nosso se o cara tem ou não dinheiro ou se ele revira latas de lixo pra comer...?, é...? somos uma empresa filantrópica? Se o cidadão não pagar é problema do jurídico. Simples, né? A GENTE TEM UM PRODUTO E SÓ QUEREMOS QUE A SENHORA O VENDA. Tua nota é 32. Boa noite.

Panaca.

As notinhas eram de 0 a 100. Eu sempre ficava meio escorada nos 60. Hoje, 32. Olhei pra minha colega de infortúnio e ela me enviou um sorriso de espartana. Era ela quem deveria fazer a monitoria, três anos de empresa, um recorde entre os da VENDA-ATIVA. No entanto, o cara que acabava de me mijar tinha 22 e três meses de atendimento. Ei, alguém diz pra aquele louco que segura a bandeira da JUSTIÇA enfiá-la no rabo???Obrigada.

*

Trinta segundos. A supervisora me fez um sinal. O intervalo entre as ligações era de trinta segundos. A máquina tinha de girar e girar e girar. Apertei o botão pro sistema discar o próximo número. Oito da noite, e eu tinha um janelão às minhas costas. Girei a cadeira de rodinhas e vi os carros indo e vindo na Júlio de Castilhos. Do décimo primeiro andar era legal ver a cidade e as suas luzinhas de merda. O céu tava estrelado mas não era bonito.

Comecei a declamar o script imbecilóide enquanto examinava a possibilidade de quebrar o janelão com a minha cadeira (quer dizer, a cadeira da empresa) e depois me jogar com os braços abertos até meter a cara no asfalto... Aí o cliente disse que não tinha computador e eu perguntei se ele conhecia alguém pra me indicar e ele disse que se o fizesse perderia a amizade da pessoa. Boa noite, querida, ele disse. E desligou. Oito e quatro. Mais uma ligação. O cliente tava no banheiro e não podia me atender. Mentira. Era só sacarem que a ligação vinha de um call center que já escapavam rapidinho. Deixei um recado inútil. A mulher foi legal e fingiu que anotou. Oito e seis. Bocejei. Um colega me passou um pedaço de rapadura, escondido. Não podia comer nos postos de atendimento. Enfiei o troço doce na boca, ajeitei a bunda no assento e mandei ver mais um número.

-Boa noite, senhor.

-Boa noite, senhorita.

O negócio era atacar rápido, não deixar espaço pro camarada pensar ou perceber que recebia uma ligação direta do Inferno.

-Meu nome é Betty, sou do megaportal Itop de internet e o senhor acaba de receber uma superpromoção. A partir de agora, desse instante, nesse momento, o senhor terá trinta dias pra acessar todos os nossos canais gratuitamente. Basta apenas que nos forneça o número do seu CPF e escolha a sua senha pessoal e intransferível! O senhor terá informações do mundo inteiro na tela do seu computador. E através do nosso provedor terá acesso à cultura e diversão sem sair de casa. Não perca ESSA OPORTUNIDADE. É agora ou nunca.

Eu falava enquanto tentava demolir a rapadura entre os dentes, a merda grudava no céu da boca. De repente me bateu um desespero, estendi a mão e peguei a garrafa de água mineral a minha frente. Bebi um golão.

-Nunca.

Quase engasguei.

-Como...? digo, o senhor contará com descontos em vários estabelecimentos da cidade e do exterior e ainda receberá um DVD de presente a sua escolha.

-Um aparelho de DVD?

-Um filme, pode ser...

-Não, obrigado. Já tenho meu provedor e não vejo motivo pra trocar.

-Então farei uma nova proposta imperdível - era a mesma, só que dita de outra forma, - O senhor mantém o seu provedor enquanto utiliza o nosso de forma gratuita, a fim de compará-los.

-Não, obrigado. Fica pra próxima, agora eu...

-Esse tipo de oportunidade não surgirá novamente. Que tal um filme, 30 dias gratuitos e dois ingressos pra assistir ao filme italiano MOSCA TONTA...?

-Tô jantando... Pode ligar outra hora, por favor?

-É que o sistema é eletrônico e não podemos retornar as ligações. Tô passando o seu login e a sua senha de acesso e agora mesmo o senhor poderá acessar o nosso megahipersuperportal... É só anotar...

-Não tenho papel.

-É só memorizar...

-Escuta, senhorita, não quero ser indelicado, sei que é o teu trabalho, sei que deve ser uma pressão danada, sei que a vida não te deu muitas oportunidades e tu tem que ficar horas e horas telefonando pros outros e enchendo o saco mas...VÁ À MERDA!

Desligou. E eu consegui engolir a rapadura.

*

Oito e meia. Fiz sinal pra supervisora. Tínhamos direito a quinze minutos de intervalo. Dez pra comer e beber, e cinco pra mijar e mijar. Só. Comíamos o que trazíamos de casa mas o expresso era totalmente gratuito. A máquina da Coca às vezes ficava com o nosso dinheiro e não despachava a latinha, era um saco. Então eu sentava numa banqueta ao redor da mesa e conversava com o pessoal. Todos com seus celulares, de olho nos minutos. Descontavam-nos cada segundo fora do tronco.

Tava cansada, com dor nos ombros, nas costas e nos pés. Eu era toda dor. Lindo. Meus olhos ardiam. E às vezes sentia uma fisgada nos pulsos.

O meu horário era o das três da tarde às nove. Era proibido fazer ligações após as vinte e uma horas. E a empresa levava a sério. Rá rá rá.

Entrei no banheiro e mijei. Olhei pro teto e vi um olho preto, a porcaria de uma câmera. Um dia tirei o tampão e balancei pro cara que me espionava. Diziam que aquela porcaria não era uma câmera, e sim um buraquinho sem função. Eu nunca soube da existência de algum buraquinho sem função.

Um minuto. Avisei o meu intestino e ele calou-se. Lavei as mãos. Fitei-me no espelho. SE TU NÃO TE TORNAR UMA ESCRITORA PROFISSIONAL PODRE DE RICA COMO O PAULO COELHO EU COMO O TEU FÍGADO, SUA PUTA! Fiz pose de boxeadora, saltitei no lugar e simulei uns soquinhos. O.k., venham me ferrar que eu mostro as minhas marcas!

Voltei com os ombros encurvados para a P.A. O colega da rapadura contava uma piada e os outros riam. Ofereceu-me outro pedaço do grude, escapei. Sentei-me com um ânimo de dar inveja aos moribundos. Pus o headset, apertei o botão para que aparecesse outro número. Bocejei. Era a voz de uma secretária eletrônica. Fiquei alegrinha. Esfreguei os olhos. Outra ligação. Minha colega disse que usaria o fundo de garantia pra comprar um apê, assim podia se casar logo. Ah, eu disse. E o cara do outro lado da linha me informou que o titular do telefone havia morrido ontem. Ah, eu disse. Fui para a próxima ligação. E todos gritaram porque estávamos próximos da meta, só faltavam cem assinaturas.

-Se cada um vender mais dez até as nove, fechamos a meta!!! VAMOS!! ÂNIMO, O SUCESSO DEPENDE DE VOCÊS!

Precisei de seis horas pra vender quatro assinaturas e a vadia queria que em quarenta e poucos minutos eu vendesse mais dez. Ei, não tomou teus remedinhos hoje...?

Nove horas e um minuto. Ergui-me da cadeira meio zonza. Uma dor de cabeça dos infernos e o estômago implorando comida. A coluna em frangalhos.

-QUEM FICAR ATÉ MEIA NOITE RECEBERÁ HORA EXTRA!

Olhamo-nos, os operadores escravos, os sacanas miseráveis, os famintos, os implacáveis. Pensei no meu envelopinho com o dinheiro pra publicação do meu primeiro livro, pensei na minha história, pensei na história da minha vida e me vendi por uns trocados.

Todos nós, os odiados, continuamos a encher o saco dos cidadãos do país.

*

Uma hora no ônibus.

Deitei no sofá pra decidir se tomava banho, fumava, comia, bebia ou assistia à televisão até dormir. Dormi. Acordei de madrugada com dor no pescoço. Não me levantei. Era por causa de um fio de cabelo que eu não tinha força de me levantar do sofá. Lembrava. Uma boca se abriu, um sorriso, dois dedos puxaram da língua um longo fio preto, um fio do meu cabelo. Ah, eu pensei.